10 de set. de 2008

Start.



A viagem foi difícil. Aparentemente quando a gente precisa que as coisas sejam mais rápidas acionamos um dispositivo maldito dentro da cabeça que faz tudo demorar o triplo do tempo que levaria normalmente.
Demorou muito. Seis horas. Mas chegou.
O cheiro, as ruas, as luzes, as árvores....tudo. DE NOVO.
E pelo mesmo motivo das vezes anteriores.
Eu voltei até a minha cidade para acreditar, engolir a seco aquilo tudo.
Quando eu digo que nunca gostei de surpresas, de nenhum tipo, ninguém entende o porquê.
É por isso.
Você fica sem chão, por segundos que duram a eternidade.

...

Rostos familiares me tiraram daquele instante rápido de medo de ter sido esquecida lá sozinha naquela rodoviária vazia.
Sem muita enrolação tive que criar coragem e chegar finalmente ao meu destino.

Do mesmo jeito.
O canteiro, os banquinhos, as árvores, as lágrimas, o cheiro horroroso de flor que denunciava um fim mais triste ainda.
Eu posso dizer que foi uma dor alucinante.
Não precisei ver pra minha ficha cair.
Só de pisar ali e me dar conta de vez o que eu tinha ido fazer lá, o porque eu havia voltado, meus olhos se encheram e meu coração doeu.
Chegada a hora, a última aliás, compulsivamente chorei.
Até não ter mais lágrimas...
Como é difícil.
Por 21 anos, ela me amou.
Segurou minhas barras mais pesadas e levou minha cruz quando as dores eram tantas que eu não podia mais carregar nem o peso da minha sombra.
Me recordo de ter olhado para meu pai adotivo e ter dito: "Acabou".
Recebi mais uma vez um olhar de compaixão.
Havia acabado.
Me perguntei o que seria do Natal, do prato de frutas que eu sempre comia lá, da água gelada, dos copos pequenos do armário.
Acabado pra sempre.
Me lembrei dos pães caseiros, da manteiga feita em casa, dos biscoitos de polvilho.
Havia acabado.
Tão de repente.
As lembranças eu guardei, junto da dor da perda de uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Sentei na sarjeta (que lugar tão familiar para mim) e olhei pro céu em busca de uma explicação.
Eu sabia que nunca iria encontrar, mas valia a pe...

AS LUZES.
Num estalo levantei e gritei: "AS LUZES!!!".
Meu Deus, tantos anos pra respostar estar ali, socada no meu nariz e eu nem perceber.
Quem lê de verdade o que eu escrevo, sabe que por milhões de vezes eu descrevi que as luzes do centro me davam uma sensação de paz, de calma.
Me traziam conforto, segurança.
Tanto que fui morar atrás do Largo do Arouche.
As luzes de lá....eram todas da mesma cor das que iluminam o centro.
Por isso!!!
Exatamente por isso a sensação de segurança, de conforto.
Eu estava de volta a minha cidade, onde todas as luzes são como as do centro.
Por isso!
Sei que quem ler isso daqui, vai achar um grau de babaquice sem fim.
Mas quem me conhece sabe que por muito tempo eu me perguntava o porque disso.
Dessa coisa toda de sensação e afins.
Mas foi em meio a dor da perda da minha segunda mãe e a lágrimas que descobri um pouco mais sobre a minha pessoa.
É gostoso quando você consegue ir até a origem de determinada dor ou sensação.
Se descobrir, saber da onde vem. É você. É o que você sente e como sente.
Enfim.
Foi a partir deste momento que comecei a amenizar a dor que sentia e tentar ver a metade do copo cheio.
Como ela mesmo havia me ensinado.

Fui inundada de uma quantidade incontável de sensações.
Ora doloridas, ora divertidas.
O gosto do chocolate quente da minha madrinha, os abraços do meu pai adotivo, as chatices de sempre da minha mãe.
Mas nenhum telefonema.
Nem pra saber se cheguei bem.

Havia chegado a conclusão diante daquele túmulo que eu não podia enterrar apenas uma coisa importante que havia cumprido sua missão em minha vida.
Deveria fazer o que tinha que ser feito há tempos.
Uma catarse.
Jogar fora.
Quando desceram o caixão, meu coração se apertou.
Era o momento de fechar um ciclo.
Alguns cliclos.
ACABOU.
Naquele túmulo eu deixei muita coisa e havia prometido pra mim deixar enterrado tudo.
Sem chances de voltar pra me assombrar.
Só não tinha idéia que seriam tantas coisas deixadas lá que sairia dali me sentindo toneladas mais leve.
...

Sempre troquei as bolas, dizia coisas que eram incompreensíveis.
E pude reparar o quão desnecessárias eram também.
Entendi talvez o motivo de ter me tornado para alguns a ovelha negra da história.
Odiada por alguns e mimada por muitos.
Do momento em que coloquei os pés lá até minha partida fizeram com que eu me sentisse em casa.
E por mais contraditório que possa parecer, adicionei mais algo na minha bagagem de vida.
SER MALEÁVEL.
Eles nunca vão ser aquilo que eu espero, porém com toda certeza darão o melhor deles pra me fazer feliz.
De um jeito ou de outro aprendi a gostar deles como são.
Analisando a gritaria ao redor da mesa, aquele monte de crianças infernais correndo, caindo, chorando e na mesma hora se levantando para rir.
"Mais porque Alyce? Tinha tantos nomes ao invés de Alyce".
As lembranças dos trotes ao telefone, fotos, música, cerveja gelada, fraldas trocadas.
Uma infinidade de coisas que transformam a minha grande família longe de ser roteiro de filme.
Mas tão adorável quanto um monte de mentiras embaladas pra presente.
Ao contrário, quando abrir não teria mais surpresa.
O cartão já avisa: PERIGO.

Alguns pensamentos me mantiveram presa a algo em SP.
Não posso mentir.
Quando algo mexe comigo, invariavelmente muita coisa me trás a tona aquilo tudo.
Mas repetia sem parar: "Para algo ser nosso, antes de mais nada ele precisa ser livre".
As mensagens me acalmavam.
Me levavam diretamente pra lá (eu confesso).
Tão próxima a ponto de lembrar do cheiro, do gosto, da cor.
Mas mantinha firme o pensamento.
Foi aí que adicionei mais outra carga a minha bagagem.
CALMA.
Deixar fluir. Mas de verdade.
Aguardar e confiar.
Ela tambem havia me ensinado isso.

Nos dias em que fiquei lá, muita coisa se passou.
Risadas, cervejas, pessoas, erros, biscoitos, tubaínas...
Mas pela primeira vez tudo me soava tão doce e certo, até mesmo o errado.
Descobri e adicionei mais uma coisa.
CONFIANÇA.
Eu que estou no comando.
Não preciso aceitar mais nada que não queira.
E sem medos.
Todo mundo precisa de um NÃO.
Todo mundo precisa de um LIMITE.
Ou é isso ou montam em você.

A hora de partir não foi dolorosa. Pela primeira vez o medo de ir, a vontade de ficar foi trocada por uma sensação de missão cumprida.
E que sensação gostosa.
Há tempos eu não experimentava tanta intensidade de uma vez só.
Tipo adrenalina, sabe?

15h30.
Hora de ir embora.
Posso dizer com toda certeza que saí de São Paulo, cidade que eu escolhi pra trilhar meu caminho achando que estava indo somente me despedir de alguém especial.
Adiei tanto essa ida.
Mas aprendi nesse emaranhado de dores, aflições e alegrias que tudo tem realmente sua hora de acontecer
Que ao contrário do que eu imaginava precisava voltar até o ponto inicial pra me encontrar.
Acima de tudo me encontrar.
As vezes precisamos ir até a dor para encontrar de verdade a paz.

Serena.
É como me sinto.
Com o coração realmente aberto, disposta a esperar um pouquinho para me desprender do pouco de apego que resta comigo.
E saiba, se um dia você chegar até o final do texto que eu não quero que espere.
Se for pra ser, vai ser diferente.
Completamente diferente de tudo que já existiu pra ambos.

Alyce.
São Paulo, 11 de setembro de 2008.
Hora: 01h35.

Um comentário:

  1. Tudo muda, até bermuda.
    Ai que tosco.
    É que eu fico sem saber como comentar...

    Você não está com uma sensação estranha? Tipo... lembrar de si mesma há um mês atrás parece estranho. Você olha pro passado, mas pra um passado recente, e se vê bem menos do que é hoje...
    Mais ou menos isto.

    "Estive fora por alguns dias, e não é fácil estar aqui de pé..."

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