29 de set. de 2008

Contos de Alyce - Capítulo 1

Maldição de trilha sonora.
Já reparou que existem pessoas que não conseguem necessariamente fazer nada sem música?
Esse tipo de pessoa sou eu.
Aí, sempre acontece algo e você intuitivamente atribui aquela música ao momento ou a pessoa e fode tudo.
Acabou-se.
É uma merda só, a música que era sua favorita vira trilha sonora de algo que necessariamente você não gostaria de lembrar.
Mais acontece.
Talvez por isso eu nunca tenha tido uma trilha sonora com namorados ou ficantes.
Porra, fode o relacionamento, mas deixa a música por favor!
Acho que música é o modo mais terno e foda de se eternizar algo.
Ao menos na minha vida, onde tudo tem relação com uma banda ou música é assim.

Ele reclamava do barulho que eu fazia...
Com a boca sabe?
Cantarolando canções sem a letra, só aquela parada de acompanhamento.
Talvez seja algo irritante mesmo!
Acordar, cozinhar, mijar, cagar, trepar (não, trepando eu não canto), dormir...sempre do mesmo jeito.
É uma forma minha de deixar mais alegre, mesmo quando a situação é triste.
Mas irritava ele.

Ele, minha mãe, meus amigos da escola, a galera da faculdade uns anos depois.
Acabei podando isso em mim.
Parei de cantar.

Reparou nisso também???
Quantas coisas deixamos de fazer por causa dos outros...

Tantas...

E isso é triste.
Sei que na prática é muito mais difícil que na teoria, mas deveríamos aceitar mais as pessoas. Uma coisa natural, sabe?
A pessoa é aquilo ali e não vai mudar, se mudar é algo como mentira embalada pra presente.
Uma hora o pacote rasga e a gente vê o que realmente estava embrulhado.
Mas eu digo que sempre tem algo ou alguém que reaviva aquela coisa que você tinha e que interrompeu abruptamente.
E sabe, isso que faz O sentido.
Quando você volta a fazer aquela bobagenzinha costumeira, ela volta com outro gosto.
Talvez por isso eu tenha cantado tanto ultimamente...
Um dia talvez essa pessoa entenda o motivo.
Mas é um fato...
Tem cada pessoa com o poder absurdo de mudar muita coisa na nossa vida.
Por isso digo, é algo que aprendi depois de alguns tombos, deixe tudo na sua vida livre.
Absolutamente TUDO.
Nada é teu e da onde veio, provavelmente vai voltar.

Provavelmente você chore uma ou duas semanas, mas entenda.
Na vida é assim, as pessoas entram na nossa vida, fazem o que tem que fazer e saem dela.
Tipo prazo de validade mesmo.
É cruel pensar assim as vezes, mas é melhor não se enganar com o "pra sempre", sendo que o "pra sempre" nunca existiu.
A verdade é uma só, absorva tudo que você puder de uma pessoa que está na sua vida, transmita conhecimentos, dê e receba, tudo intensamente, afinal, se acabar amanhã e essa pessoa cair fora, você sabe que ela saiu e que de alguma forma, tudo que era pra ter sido aprendido e ensinado foi.
Ponto final e próximo capítulo, por favor?

Contos de Alyce - Nota do Autor

Graças a ele.
Ele e as idéias estranhas sobre livros impressos de forma tosca, clube da luta e algo como gravadores que caem do teto.
Uma bobagem só, mas creio que é daquelas premiadas e que farão sucesso.
O sorriso encorajador e o jeito de falar animadamente...
Me pus a escrever o que penso ser apenas a nota de mais um conto.
E apenas pra começar quero dizer que as besteiras ditas numa noite de domingo em meio ao trânsito me fizeram entender que muitas vezes é preciso de um impulso por menor que ele seja pra imortalizar algo.
Algo como ele mesmo disse, que mude a vida de apenas uma pessoa pra fazer valer a pena ter sido escrito.


A companhia mais agradável das férias mais esperadas da face da Terra.
Muito obrigada!



Alyce.

10 de set. de 2008

Start.



A viagem foi difícil. Aparentemente quando a gente precisa que as coisas sejam mais rápidas acionamos um dispositivo maldito dentro da cabeça que faz tudo demorar o triplo do tempo que levaria normalmente.
Demorou muito. Seis horas. Mas chegou.
O cheiro, as ruas, as luzes, as árvores....tudo. DE NOVO.
E pelo mesmo motivo das vezes anteriores.
Eu voltei até a minha cidade para acreditar, engolir a seco aquilo tudo.
Quando eu digo que nunca gostei de surpresas, de nenhum tipo, ninguém entende o porquê.
É por isso.
Você fica sem chão, por segundos que duram a eternidade.

...

Rostos familiares me tiraram daquele instante rápido de medo de ter sido esquecida lá sozinha naquela rodoviária vazia.
Sem muita enrolação tive que criar coragem e chegar finalmente ao meu destino.

Do mesmo jeito.
O canteiro, os banquinhos, as árvores, as lágrimas, o cheiro horroroso de flor que denunciava um fim mais triste ainda.
Eu posso dizer que foi uma dor alucinante.
Não precisei ver pra minha ficha cair.
Só de pisar ali e me dar conta de vez o que eu tinha ido fazer lá, o porque eu havia voltado, meus olhos se encheram e meu coração doeu.
Chegada a hora, a última aliás, compulsivamente chorei.
Até não ter mais lágrimas...
Como é difícil.
Por 21 anos, ela me amou.
Segurou minhas barras mais pesadas e levou minha cruz quando as dores eram tantas que eu não podia mais carregar nem o peso da minha sombra.
Me recordo de ter olhado para meu pai adotivo e ter dito: "Acabou".
Recebi mais uma vez um olhar de compaixão.
Havia acabado.
Me perguntei o que seria do Natal, do prato de frutas que eu sempre comia lá, da água gelada, dos copos pequenos do armário.
Acabado pra sempre.
Me lembrei dos pães caseiros, da manteiga feita em casa, dos biscoitos de polvilho.
Havia acabado.
Tão de repente.
As lembranças eu guardei, junto da dor da perda de uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Sentei na sarjeta (que lugar tão familiar para mim) e olhei pro céu em busca de uma explicação.
Eu sabia que nunca iria encontrar, mas valia a pe...

AS LUZES.
Num estalo levantei e gritei: "AS LUZES!!!".
Meu Deus, tantos anos pra respostar estar ali, socada no meu nariz e eu nem perceber.
Quem lê de verdade o que eu escrevo, sabe que por milhões de vezes eu descrevi que as luzes do centro me davam uma sensação de paz, de calma.
Me traziam conforto, segurança.
Tanto que fui morar atrás do Largo do Arouche.
As luzes de lá....eram todas da mesma cor das que iluminam o centro.
Por isso!!!
Exatamente por isso a sensação de segurança, de conforto.
Eu estava de volta a minha cidade, onde todas as luzes são como as do centro.
Por isso!
Sei que quem ler isso daqui, vai achar um grau de babaquice sem fim.
Mas quem me conhece sabe que por muito tempo eu me perguntava o porque disso.
Dessa coisa toda de sensação e afins.
Mas foi em meio a dor da perda da minha segunda mãe e a lágrimas que descobri um pouco mais sobre a minha pessoa.
É gostoso quando você consegue ir até a origem de determinada dor ou sensação.
Se descobrir, saber da onde vem. É você. É o que você sente e como sente.
Enfim.
Foi a partir deste momento que comecei a amenizar a dor que sentia e tentar ver a metade do copo cheio.
Como ela mesmo havia me ensinado.

Fui inundada de uma quantidade incontável de sensações.
Ora doloridas, ora divertidas.
O gosto do chocolate quente da minha madrinha, os abraços do meu pai adotivo, as chatices de sempre da minha mãe.
Mas nenhum telefonema.
Nem pra saber se cheguei bem.

Havia chegado a conclusão diante daquele túmulo que eu não podia enterrar apenas uma coisa importante que havia cumprido sua missão em minha vida.
Deveria fazer o que tinha que ser feito há tempos.
Uma catarse.
Jogar fora.
Quando desceram o caixão, meu coração se apertou.
Era o momento de fechar um ciclo.
Alguns cliclos.
ACABOU.
Naquele túmulo eu deixei muita coisa e havia prometido pra mim deixar enterrado tudo.
Sem chances de voltar pra me assombrar.
Só não tinha idéia que seriam tantas coisas deixadas lá que sairia dali me sentindo toneladas mais leve.
...

Sempre troquei as bolas, dizia coisas que eram incompreensíveis.
E pude reparar o quão desnecessárias eram também.
Entendi talvez o motivo de ter me tornado para alguns a ovelha negra da história.
Odiada por alguns e mimada por muitos.
Do momento em que coloquei os pés lá até minha partida fizeram com que eu me sentisse em casa.
E por mais contraditório que possa parecer, adicionei mais algo na minha bagagem de vida.
SER MALEÁVEL.
Eles nunca vão ser aquilo que eu espero, porém com toda certeza darão o melhor deles pra me fazer feliz.
De um jeito ou de outro aprendi a gostar deles como são.
Analisando a gritaria ao redor da mesa, aquele monte de crianças infernais correndo, caindo, chorando e na mesma hora se levantando para rir.
"Mais porque Alyce? Tinha tantos nomes ao invés de Alyce".
As lembranças dos trotes ao telefone, fotos, música, cerveja gelada, fraldas trocadas.
Uma infinidade de coisas que transformam a minha grande família longe de ser roteiro de filme.
Mas tão adorável quanto um monte de mentiras embaladas pra presente.
Ao contrário, quando abrir não teria mais surpresa.
O cartão já avisa: PERIGO.

Alguns pensamentos me mantiveram presa a algo em SP.
Não posso mentir.
Quando algo mexe comigo, invariavelmente muita coisa me trás a tona aquilo tudo.
Mas repetia sem parar: "Para algo ser nosso, antes de mais nada ele precisa ser livre".
As mensagens me acalmavam.
Me levavam diretamente pra lá (eu confesso).
Tão próxima a ponto de lembrar do cheiro, do gosto, da cor.
Mas mantinha firme o pensamento.
Foi aí que adicionei mais outra carga a minha bagagem.
CALMA.
Deixar fluir. Mas de verdade.
Aguardar e confiar.
Ela tambem havia me ensinado isso.

Nos dias em que fiquei lá, muita coisa se passou.
Risadas, cervejas, pessoas, erros, biscoitos, tubaínas...
Mas pela primeira vez tudo me soava tão doce e certo, até mesmo o errado.
Descobri e adicionei mais uma coisa.
CONFIANÇA.
Eu que estou no comando.
Não preciso aceitar mais nada que não queira.
E sem medos.
Todo mundo precisa de um NÃO.
Todo mundo precisa de um LIMITE.
Ou é isso ou montam em você.

A hora de partir não foi dolorosa. Pela primeira vez o medo de ir, a vontade de ficar foi trocada por uma sensação de missão cumprida.
E que sensação gostosa.
Há tempos eu não experimentava tanta intensidade de uma vez só.
Tipo adrenalina, sabe?

15h30.
Hora de ir embora.
Posso dizer com toda certeza que saí de São Paulo, cidade que eu escolhi pra trilhar meu caminho achando que estava indo somente me despedir de alguém especial.
Adiei tanto essa ida.
Mas aprendi nesse emaranhado de dores, aflições e alegrias que tudo tem realmente sua hora de acontecer
Que ao contrário do que eu imaginava precisava voltar até o ponto inicial pra me encontrar.
Acima de tudo me encontrar.
As vezes precisamos ir até a dor para encontrar de verdade a paz.

Serena.
É como me sinto.
Com o coração realmente aberto, disposta a esperar um pouquinho para me desprender do pouco de apego que resta comigo.
E saiba, se um dia você chegar até o final do texto que eu não quero que espere.
Se for pra ser, vai ser diferente.
Completamente diferente de tudo que já existiu pra ambos.

Alyce.
São Paulo, 11 de setembro de 2008.
Hora: 01h35.